segunda-feira, 21 de maio de 2012

Elegia da seca

Por falta d'água
Ou de vergonha:

Vende o bicho magro
Enquanto não morre
Feijão, oito reais
Nem água bota

Vende a esperança
Enquanto não morre
Que nesses olhos
Nem água brota

Onde não dá milho ou feijão
Colhe o ceifeiro

Pedaços de papel pintado:
Dinheiro, jornais
Leis, contratos
Escrituras, poemas

Matam mais que o cigarro
A escrita é a mãe do silêncio.

E silêncio
É o que mata
A seca não, e no luto

O silêncio
É o que fica,
Depois da morte, um minuto.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Poema de amor

Na língua
Portuguesa ou na sua
Eu tropeço
Passeio, trapaceio

Calo, ou falo
Ou pelo, vulva
Aperto
E rompo
a linha. O ponto
O hímen

Verso-inverso
        Verso-inverso
Imerso-inverso
            Inverso-imerso.

Depois da estrofe:
Pausa.
Reticência
Ou morte.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Num instante

O ar quente embaçava
os vidros do Peugeot
em frente ao supermercado.
O rádio devia tocar
ninguém ouviu.
Mas lembro
do gosto do beijo,
do perfume escondido atrás da orelha
e dos pelos
arrepiados da perna direita.
As gotas de chuva brilhavam
refletindo os faróis
pela Frei Serafim.



Caí

e sabia que ia dar nisso:
o amor é um precipício
muito bem sinalizado.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

As palavras o poeta

||Ao poeta Adriano Lobão Aragão||

Curtos versos
Pouca estatura
Pelúcia barba
Olhos de pingue pongue

O contradito desenredo de palavras
Será motivo
Dos sonhos das que sonham?

[Jaz aqui um verso]
Os sonhos
Movem os olhos de Adriano:

Pequeninos olhos
Ternos
Flutuantes.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O silêncio que sucede o grito

Sempre reclamava. De tanto reclamar era poeta, literato, ou coisa assim. Escrever era uma maneira sofisticada de reclamar. Do mundo, da vida, e sobretudo do amor, ou qualquer coisa que se sinta. Tinha paixão pelo inalcançável, talvez para poder reclamar de nunca consumar o que desejava.
Reclamar era matéria e método de toda criação. Combustível dos neurônios, catalizador da substância intangível que chamam talento, dom, alma, ou mesmo deus.

[Passaram-se muitos carnavais, e depois do carnaval]

Já não havia o que dizer, pois não havia do que reclamar. Mesmo a má sorte que insistia em pequenos detalhes do dia-a-dia não era motivo. A falta de dinheiro pouco importava; nem chuva forte, nem café fraco. Só reclamava do silêncio. Do vácuo que deixava a falta de ter do que reclamar.

Ela não entendeu a tentativa de explicar: O silêncio é paz. Os versos de amor que não escrevia pra ela eram culpa do consumado: amor só é poema quando dói; quando silêncio, é felicidade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sabina

Sabina usa chapéu, gosta da nudez e
de espelhos.
Entrega-se sem se deixar pertencer
                                  Ama
Tão simplesmente
Sabina gosta de gente
- detesta as pessoas -
Pois sabe que o mundo padece

Sabina acredita, tem medo e desejo
Nua, chapéu, pêlos e olhos de dúvida
[que ela provoca]
Sabina mantém a exata medida
Do acessível
E da insustentável leveza
Do intangível.

Sabina é espelho
Do humano que sou e que sonho
De chapéu e nu
A alma virgem
O corpo maculado
É Sabina
O meu amor
[que não existe]
Caralho!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Extremos

O pior porre é o de vinho. O pior computador é o CCE. A pior casa é a rua. O pior sorvete é o feijão. A pior cerveja é a quente. O pior calor é o de Teresina. A pior internet é a discada. O pior celular é o chinês. O pior programa é o Faustão. A pior embriaguez é o sono. O pior amigo é o cigarro. O pior cigarro é o facebook. O pior sinal é o da Tim. O pior cartão é o Credishop. O pior carro é o QQ. O pior canal é o SBT. O pior sexo é o vazio. A pior carne é a de soja. O pior governo é o do Maranhão. O pior café é o solúvel. A pior doença é o câncer. O pior câncer é a mentira. A pior mentira é [de] amor.

O melhor porre é o primeiro. O melhor computador é o Aple. A melhor casa é a sua. O melhor sorvete é o Kibon. A melhor cerveja é a Bohemia. O melhor calor é o humano. A melhor internet é a do Japão. O melhor celular é o de teclas. O melhor programa é o cinema. A melhor embriaguez é a paixão. O melhor amigo é o cachorro. O melhor cigarro é o silêncio. O melhor sinal é o verde. O melhor cartão é o quebrado. O melhor carro é o do outro. O melhor canal é o AV. O melhor sexo é o carinho. A melhor carne é a mulher. O melhor governo é o da oposição. O melhor café é o da tia. A melhor doença é o sono. O melhor câncer é o falso. A melhor mentira é [por] amor.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pscicopatia

s.f.  Perturbação da personalidade que se manifesta essencialmente por comportamentos anti-sociais (passagens a ato), sem culpabilidade aparente. Ausência de culpa. Cadeados destrancados. Ausência de sentir. Hábito de ler poesia em voz alta nos dias de chuva. Ato de raspar os cabelos cacheados. Guardar velhas escovas de dentes. Guardar velhas paixões. Substância que atinge a corrente sanguínea ao minimo rumor da presença dela. Obsessão, idéia fixa. Vontade de dizer coisas belas e sujas. Planos mirabolantes. Desejo de morte e de vida. Sorriso amarelo. Desejo súbito de tomar a mulher do próximo. A luz do sol por trás de cortinas de algodão. Sentir falta e não saber de quê, mas desconfiar. Estado da alma provocado ao descobrir uma variação sueca para Catarina.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Faltando um pedaço

Eu tentei: Chico, Neruda, Drummond, Vinícius, Aurélio, Caetano, Pessoa, Gil, Camões, Marquez, Arnaldo, Djavan, São Paulo, Rossi, Baleiro, Odair... Tentei nas comédias românticas de Hollywood, nos muros pichados, nas citações anônimas que assinam como Caio, Clarice ou Jabor. Nos videos publicitários do 12 de junho, no horóscopo da internet, até prestei atenção ao mais novo hit sertanejo universitário que tocou no ônibus.
O amor não é isso.

O amor não é coisa alguma até doer. O amor não é nada se não for abismo. O amor não é palavra, embora precise ser dito. O amor não é sublime. O amor não é recado deixado na parede do banheiro. O amor não é porta retrato com vidro pra quebrar em caso de saudade. O amor não é um sms de madrugada. O amor não é, em si mesmo.
Amor é mais.

Farelos de pão e o café que sobrou na cafeteira se parecem mais com amor.
O amor são coisas que eu não sei dizer.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Para um encontro casual ou O meu amor de criança

Vamos, movam-se!
Aqueçam por força o óleo das engrenagens do cérebro
Que dessa vez é paixão antiga

Minhas fáceis palavras, não fujam dos raios x dos olhos dela
Não me deixem tão sozinho e nu
Não abandonem aqui essas poucas que me expõem ao ridículo

Vamos ensaiar, palavras!
A coreografia pode ser aquela que funciona sempre [quando não é ela]
Que a música é um rock balada em 4/2:

123, fingir desinteresse!
... [espaço reservado ao que ela disser]
7 e 8 humor inteligente [façam-na sorrir]
agora um Elogio sincero e súbito
[as palavras dela vão fugir]
hora da Bobagem fazer a descontração
sorriu, caminho aberto: o Silêncio!

-fim do primeiro ato-

Hora da apresentação, evitar os olhos dela
Ótimo, começar a dança.
...
7 e 8, ela sorriu.
Palavras?

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Do desassossego

O mês de agosto tem gosto de remédio para verme, e talvez tenha o mesmo efeito, pois setembro é natal. Outubro é sempre às duas e meia da tarde, assim como novembro tem cheiro de feijão no fogo na hora da fome e é aquela agonia pra que o tempo passe.
Compreendendo que dezembro seja o instante feliz, que metáfora eu deveria utilizar para deixar bonito sutil e simples isso que é tão pouco compreensível e que por isso mesmo não carece de explicação?
Eu sei que aqui em casa a geladeira tá fazendo um barulho de trator e o tapete da sala se sente sozinho; o ventilador fica dizendo que não com a cabeça, o leite estragou e a cama está mal acostumada a me ter só para ela, mas tudo isso é janeiro.
De dezembro eu só sei dizer, talvez, que havia passarinhos na rodoviária e que o trânsito tentou me segurar com um abraço. Sei dizer que eu não ouvi as músicas de natal e que as luzes da cidade só brilharam nos meus olhos, de dentro pra fora. Sou incapaz de descrever o gosto, assim como não sei de cores. Talvez a textura do mês de dezembro se assemelhe à de uma mão de mulher, e talvez tenha cheiro de alguma coisa que remeta a um momento feliz da infância.
É muito pouco qualquer coisa que eu diga, mas o livro que grita o seu nome de noite como criança abandonada me ensinou que escrever o que eu sinto alivia a febre de sentir. Fosse ficção, queria a vida como um reggae do Gil: congregar, reunir elementos diferentes. Pois assim ela o é, e eu quero. Quero o alegre e o triste, cheiro de mato e internet, café e chocolate, o doce e o azedo, o leve e o pesado dessa coisa tão simples, 
incompreensível 
e única 
da presença
de você.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cem anos de solidão

O pulso ainda pulsa!

Enquanto o incomodavam as pontas das penas no travesseiro, gastou uma parte dos seus últimos impulsos elétricos para escrever uma história de amor, dessas de amor impossível: de moça na torre alta e sem cabelos para jogar, de escravo e senhorinha, de lugares distantes sem promoções da gol. Na sua história, amor não era poesia, mais bonito com o sofrimento. Era amor que cansava de tanto não acontecer, que se gastava de  ficar guardado.

...

Foi quando resolveu tirar o coração da caixinha que ficava dentro da sacola de TNT fechada com corda de nylon guardada dentro da gaveta de roupas que não servem mais e que ficam esperando serem doadas. Tentou ver se o pouco que restou ainda preenchia o vazio no peito, olhou uma foto dela no facebook e tumtum - tumtum: amou.

...

De idade, não era velho, nem roído de amargura. Esqueceu de perguntar ao coração se ele mentia, esqueceu de perguntar que horas eram pro relógio de parede, esqueceu de perguntar pra ela o que sentia. Esqueceu ou não perguntou porque preferia não saber. E foi ser sensível na vida, o bobo.